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Indika - Análise



As crenças fazem parte da organização social nas comunidades humanas. Através da Igreja - como organização política - conjunto de valores, ideias e objetivos em comum exercem um papel de dominação e controle da sociedade. Uma forma de controle é o conceito de pecado, que delimita o que é certo e errado, o que é feito pelos bons e pelos maus  ou - para os mais astutos pecadores - o que a Igreja aceita e o que ela condena. Logo de início, a Indika é exposta como uma freira mal vista no monastério onde escolheu viver por “falar com o Diabo” e questionar regras e imposições. Apesar dos maus tratos e da falta de entendimento dos métodos, a Indika é devota e, após ser encarregada de entregar uma carta, ela parte em uma jornada fria para cumprir seu dever.



Uma história que não pecou na qualidade


Antes de falar sobre o enredo, é necessário deixar claro que Indika é um jogo de narrativa linear com gameplay simples, sendo as reflexões das personagens na história o seu principal foco. Isso significa que é um pecado jogar sem as bênçãos do inesperado que acompanham os afortunados jogadores na primeira jogada.


A respeito da narrativa vista na campanha, destaco que ela não é revolucionária ou surpreendente, mas é sólida e tem um desenvolvimento satisfatório. Não espere de Indika uma aventura sentimental e carregada de emoções intensas - ainda que existam momentos bem pesados e angustiantes no jogo - pois a proposta da história não é causar uma forte comoção ao jogador. Na verdade, ela tem um nítido viés de questionamento, o qual é usado para explorar as percepções religiosas cristãs com intuito de expor contradições, incoerências e insuficiências. 


Isto se reflete, por exemplo, no uso da imagem de pecadora como um carma de Indika. Ora, se o monastério existe para buscar a salvação e o credo prega a empatia para com os seus irmãos - “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” - então porque perseguir, humilhar e punir uma freira desviada pelo pecado? Ela precisa justamente da salvação e do cuidado que o monastério deveria prover. Feito meu papel como diabo necessário, esse tipo de dilema é bem explorado ao longo da história, vale a pena refletir.


Abordando as técnicas utilizadas para a construção das críticas e das personagens, a ironia e a contradição são os maiores destaques. O diabo é jocoso e ousado, satirizando as ações do credo com lógica e abrindo a perspectiva de Indika. A freira, por sua vez, é tímida e contida, tentando sempre por toda sua fé nos dogmas da Igreja e seguir em frente como parte do credo. As atitudes dos religiosos - e da instituição, por consequência - oscilam entre o discurso de compaixão e empatia para com o próximo e atitudes corruptas, egoístas, criminosas e perversas. Entendo esse elenco de personagens como o aspecto mais interessante do jogo.


A campanha dura cerca de 4 a 5 horas e é dividida em fases. A transição entre elas é marcada por trechos de evangelho com uma mensagem referente aos acontecimentos da história. No geral, fiquei imersa do início ao fim e gostei da experiência com a história de Indika.



Jogabilidade simples, porém marcante


Sobre a gameplay de Indika, ela não é nada complexa. Trata-se de andar pelo cenário e interagir com alguns objetos para resolver puzzles simples - como procurar um item para abrir um portão que está trancado - mover objetos de lugar para conseguir passar ou simplesmente achar um colecionável com algumas informações legais. Não é um jogo para quem busca jogos de quebra-cabeça complexos ou com muita ação envolvida, já que são bem escassos e rápidos os momentos de maior adrenalina. 


A respeito do deslocamento no jogo, aqui há alguns problemas simples de colisão, onde você anda em direção a uma cerca, por exemplo, e tem a sensação de estar tentando atravessar uma parede de tijolos invisível. Falando em paredes invisíveis, elas foram bem utilizadas para proteger o jogador de mortes frustrantes em seções abertas pelo mapa e também delimitar a área que é possível explorar. Felizmente, não há problema grave no deslocamento.


Por fim, o maior problema na gameplay de Indika acaba sendo a repetição. Você faz frequentemente as mesmas coisas e isso pode incomodar jogadores impacientes. Particularmente, não achei nenhum momento do jogo cansativo e ele tem várias seções únicas que valorizam a experiência como um todo através da sua individualidade e criatividade. Por exemplo, há seções de plataforma 2D e perseguição muito diferentes da exploração em corredor presente na maior parte do jogo. 


No geral, Indika entrega uma gameplay satisfatória para sua proposta e agradará principalmente os fãs de jogos narrativos focados majoritariamente na história e de mecânicas únicas usadas de forma criativa para momentos especiais.



Vivendo em uma Rússia religiosa e fria


Se é verdade que Indika peca na gameplay - o que, reforçando, não é por si só negativo - também é inegável o quão bem ambientado e construído é o mundo do jogo. O cenário realmente me convenceu que eu estava na Rússia de um passado com uma organização prevalente da Igreja cristã. Tal qual um bairro da zona leste de São Paulo, a religião simplesmente está em todo lugar do jogo. É fácil encontrar quadros de referência a Jesus e imagens de Santos, além de altares para a Indika acender velas.


As construções também são bastante convincentes. Quando estão abandonadas, os destroços e a bagunça deixam evidente a ausência que reside ali, quando são povoadas, apresentam uma estrutura de madeira e pedras, que é simples, mas capaz de convencer que a casa é habitada por uma pessoa simples.


Ademais, há uma seção industrial no jogo que também merece destaque. Ela lembra a fábrica do Resident Evil Village e por causa do seu melhor aspecto, a direção de arte. Por último, a pixel art dos momentos de flashback são incríveis e contrastam muito bem a energia positiva daquela época para a protagonista - expressa nas cores vivas e vibrantes da pixel art - com a energia negativa proliferada pela Igreja, a qual se reflete no foco em gráfico realista de Indika e na expressão surrealista do que é o mundo para ela.



Aspectos técnicos da versão de PC


Primordialmente, quando joguei o jogo completo no PC, a performance no geral era expressivamente pior. Testei novamente após o último patch disponibilizado e houve uma melhoria significativa, principalmente com a correção do DLSS, o qual simplesmente não estava fazendo efeito algum antes. No geral, consegui jogar tranquilamente já que a minha máquina - um Ryzen 5 3600 e uma RTX 3060 - está dentro dos requisitos mínimos e quase atinge os recomendados na página do jogo na steam. Basicamente, joguei a 60 FPS com V-Sync - vale destacar que o jogo conseguiria passar de 80 FPS com o V-Sync desligado, porém minha TV é limitada a 60 HZ - na resolução Quad-HD (2560x1440) no preset médio usando DLAA. No entanto, apesar da boa experiência, há problemas técnicos de Indika que não podem ser ignorados. 


O primeiro deles é a ausência completa do FSR, tendo apenas o DLSS disponível. Por mais que no geral o DLSS entregue resultados melhores que o FSR, Isso limita o upscaling apenas para donos de RTX 2000 ou placas mais novas da Nvidea, prejudicando donos de placas da AMD, Intel e mais antigas da Nvidea que poderiam tentar jogar Indika em uma qualidade mais baixa, já que o principal do jogo não são seus gráficos e sim a história e as críticas. Além disso, as recomendações presentes Steam nos requisitos mínimos e nos recomendados de placas de vídeo contam com 6 placas, sendo que 5 delas não tem suporte ao DLSS. 


O segundo é a baixa quantidade de configurações gráficas disponíveis para o usuário, resumindo-se em um preset gráfico baixo, outro médio e outro alto. Como o mercado de placa de vídeos tem muitos segmentos, é possível que usuários específicos precisassem de ajustes pequenos para melhorar o desempenho, como reduzir apenas texturas ou ajustar levemente a iluminação para manter um bom framerate em um preset que completo é inviável, mas com pequenos ajustes tem um resultado melhor que o preset anterior totalmente reduzido. Por sorte, o jogo em si é bem bonito, então mesmo que você precise jogar no baixo, não vai ter uma experiência desagradável. Recomendo muito que você suba para o médio caso consiga e pare por ali mesmo, já que o ultra é bem mais pesado e não entrega tanta melhoria assim. É melhor o médio nativo que o ultra usando o DLSS de forma agressiva.


O terceiro ponto são algumas quedas de FPS e instabilidades específicas. O próprio jogo deixou claro nos requisitos mínimos que podem acontecer quedas de FPS em cenas graficamente mais intensas, já que as cutscenes também são renderizadas no motor do jogo como acontece em Horizon Forbidden West, por exemplo. Ainda que esteja avisado nos requisitos, é um problema que pode incomodar e quebrar pontualmente a imersão e é até um pouco estranho de ver, já que o jogo tem um desempenho fora desses momentos bem estável no geral. Porém, não recomendo que você faça ajustes gráficos dentro do jogo, o ideal é voltar para o menu, aplicar e abrir de novo, principalmente a resolução. Você vai ter diferenças aplicando na hora, mas talvez enfrente instabilidades e insuficiências.


Por fim, o quarto ponto são os loadings. Para um SSD NVME razoavelmente rápido, achei os loadings um pouco demorados. Não é nada que vai surpreender donos de HDs ou mesmo muito inferior a outros títulos de PC que também sofrem com isso, mas acho válido destacar para quem está acostumado com loadings muito rápidos não se frustrar tanto.



Uma platina / 100% tranquilo


As conquistas do Indika são bastante tranquilas e podem ser feitas através do seletor de fases com tranquilidade após terminar o jogo. Recomendo muito que você não use guias para ir atrás delas e foque nisso apenas caso tenha interesse após zerar, acho que é a melhor forma de viver esse jogo. 



Indicação final


Indika não é um título que seria indicado ao GOTY pela grande maioria dos jogadores, porém é um jogo com personalidade e que entrega a sua proposta de forma consistente e satisfatória. Os problemas vistos ao longo da experiência foram apenas aspectos que poderiam ser melhores - ou seja, não é um defeito, é uma oportunidade não explorada - e os problemas que eu tive foram corrigidos através do último patch lançado, como a falta de um botão de ré para um veículo no jogo e a perda de fases posteriores caso eu terminasse uma fase anterior no seletor de capítulos. Com tudo isso em mente, indico Indika para quem tem interesse em jogos narrativos e gostou da proposta dele.




A análise foi feita pela @Athena_Wofel


Indika foi desenvolvido pelo estúdio Odd Meter e publicado pela 11 bits studios, que nos forneceu a cópia digital


O jogo ficará disponível para PC no dia 2 de maio e posteriormente, no mesmo mês, para PS5 e Xbox Series X | S

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